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Antimicrobianos e ensaios

Os antimicrobianos são substâncias que podem ser de origem natural ou sintética. São capazes de inibir o crescimento ou causar a morte de agentes externos como fungos e bactérias. Eles podem atuar de duas formas distintas: a bacteriostática, quando apenas inibe o crescimento bacteriano, mantendo as bactérias em fase estacionária, ou seja, de forma inerte; e a bactericida, quando mata os microrganismos de forma direta, agindo em reações vitais para a célula infectante [1]

[2]

Antimicrobianos β-Lactâmicos

Desde a descoberta da penicilina, o grupo dos β-lactâmicos tem sido o mais utilizado no tratamento de infecções bacterianas, por apresentarem um amplo espectro de ação, fornecer atividade bactericida e uma grande margem de segurança. Eles são quimicamente caracterizados pela presença de um anel β-lactâmico que se liga a partir do compartilhamento de elétrons com proteínas de ligação de penicilina, o qual modifica sua estrutura impedindo a bactéria de realizar sua função. Como consequência deste impedimento, as bactérias não conseguem formar a parede celular, resultando assim na lise bacteriana [3].

Apesar de compartilharem uma estrutura e um mecanismo de ação em comum, os β-lactâmicos são divididos em diferentes grupos de acordo com seus diferentes espectros de ação e estruturas químicas adicionais. Estes diferentes grupos são classificados como penicilinas, cefalosporinas, monobactâmicos, carbapenêmicos e inibidores de β-lactamases [4].

Penicilina

O grupo das penicilinas divide-se em: benzilpenicilinas (penicilinas naturais), penicilinas resistentes às penicilinases, aminopenicilinas e penicilinas de amplo espectro. O uso clínico do primeiro protótipo de antibiótico β-lactâmico teve início com a Penicilina G (benzilpenicilina) para o tratamento de infecções por estreptococos. São ativas frente a bactérias Gram-positivas a exemplo de Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae e Bacillus anthracis. No entanto, bactérias Gram-negativas são resistentes a ele [3]. As penicilinas podem ser classificadas em:Penicilina cristalina ou aquosa;

Penicilina G procaína;

Penicilina G benzatina;

Penicilina V.

A diferença entre elas está na forma como será administrada no paciente. Como podemos citar a Penicilina G procaína onde sua aplicação será administrada via intramuscular, já a Penicilina cristalina ou aquosa será por via endovenosa e com efeito mais rápido.

Penicilinas resistentes às penicilinases

São antibióticos bactericidas indicados principalmente para o tratamento de infecções por cepas de S. aureus produtoras de penicilinase. Eles atuam ligando-se às proteínas-ligadoras de penicilinas (PLPs), inibindo a síntese de componentes da parede celular bacteriana [5]. 

Aminopenicilinas

As aminopenicilinas são penicilinas semi-sintéticas, disponíveis desde 1960. Elas são adicionadas de um grupo amino na cadeia lateral e apresentam espectro de ação mais amplo, em relação às benzilpenicilinas. Os antibióticos mais conhecidos pertencentes a essa classe são amoxicilina e ampicilina,os quais foram sintetizados a partir de modificações na estrutura química das penicilinas naturais [3].

Penicilinas de Amplo Espectro

Apresentam um amplo espectro de atividade contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, incluindo enterobactérias produtoras de β-lactamases de amplo espectro, o que os tornam uma alternativa para o tratamento de infecções graves [4].

Resistência antimicrobiana

Trata-se de um fenômeno natural onde há uma adaptação dos microrganismos através uma recombinação genética e/ou mutação. Ou seja, é uma habilidade que o microrganismo cria para sobreviver a concentrações de antimicrobianos que normalmente matariam células sensíveis. A exposição aos antimicrobianos utiliza uma pressão seletiva onde favorece o desenvolvimento de bactérias resistentes ou as tornam resistentes [6].

Mecanismo de resistência

Intrínseco = Quando ocorre a transferência de um gene resistente por meio da conjugação de uma bactéria para outra.

Extrínseco = Pode ocorrer a partir de uma mutação genética onde a bactéria pode adquirir resistência de forma espontânea ou induzida. Esse gene de resistência também pode ser adquirido a partir de uma recombinação genética por conjugação, transformação e transdução [7].

Figura 1-A figura mostra uma visão geral dos mecanismos de resistência intrínseca. O exemplo mostrado é de antibióticos β-lactâmicos direcionados a uma proteína de ligação à penicilina (PBP). O antibiótico A pode entrar na célula através de uma proteína porina que atravessa a membrana, atingir seu alvo e inibir a síntese de peptidoglicano. O antibiótico B também pode entrar na célula por meio de uma porina, mas, ao contrário do antibiótico A, é removido com eficiência por efluxo. O antibiótico C não pode atravessar a membrana externa e, portanto, não é capaz de acessar o PBP alvo [8].

Antibiograma

O antibiograma é um método eficiente utilizado para medição de sensibilidade de microrganismos a antibióticos. Esse tipo de técnica além de ajudar na escolha de terapia antimicrobiana, também é utilizado para mensurar mecanismos de resistência extrínseca [9]. Existem três tipos de antibiogramas: o para avaliação qualitativa, realizado a partir de testes de disco difusão em ágar; o para avaliação quantitativa, o qual pode ser realizado a partir de diluição em caldo, podendo ser macrodiluição ou microdiluição, ou diluição em ágar através do E-TEST; e, por fim, o automatizado.

Disco difusão

Figura 2-Experimento com disco de difusão.

Disco difusão é um método onde os testes são feitos in vitro, usando uma placa de petri com inoculação do microrganismo em ágar e posterior aplicação de disco de papel com o antibiótico. É uma técnica bastante utilizada devido à simplicidade, baixo custo e possibilidade de testes com grande número de microrganismos e antimicrobianos. A inibição pelo antibiótico será indicada através da formação de um halo [1].

De acordo com a resistência ao antimicrobiano nesse teste, os microrganismos serão classificados em:

Sensível: É dada como sensível a um antimicrobiano quando houver inibição in vitro pela concentração da substância, assim tendo chances de ter efetividade terapêutica.

Intermediário: É considerado de resistência intermediária a um antimicrobiano quando ocorre uma inibição in vitro mas não existe uma certeza de que a droga utilizada teria resultados satisfatórios, assim, ficando incerto. 

Resistente: É considerada resistente ao antibiótico quando não ocorre inibição in vitro e mostrado que a possibilidade de fracasso com a droga é alta, assim não sendo considerada para o uso no tratamento terapêutico.

Diluição em caldo

Microdiluição em caldo

Trata-se de uma técnica quantitativa onde é realizada uma suspensão bacteriana com uma concentração pré-definida, normalmente ajustada a 0,5 na escala de McFarland. É diluída em caldo e testada contra diferentes concentrações de antimicrobiano. Todavia, é um método que requer muitas etapas e a sua preparação pode levar a erros significativos. Diante disso, é considerado um método não adaptável à rotina da maioria dos laboratórios de microbiologia [9].

Macrodiluição em caldo

Conhecida como método de diluição em tubos, a macrodiluição em caldo é uma técnica parecida com a microdiluição em relação ao tempo de preparo, ao material usado e às características dos resultados. Essa técnica se diferencia por ser efetuada em tubos de ensaio, utilizando maior quantidade de caldo. Todos os tubos conterão concentrações diferentes dos antibióticos que serão usados e avaliados posteriormente [10].

Diluição em ágar

A diferença dessa técnica com a de diluições em caldo é basicamente a adição do antimicrobiano ao meio de cultura antes mesmo que ele solidifique na placa de petri. Nessa técnica, são preparadas várias placas com diferentes concentrações do antimicrobiano e após efetuar semeio da bactéria a ser testado, o material é incubado em estufa. O tempo e a temperatura de incubação variam de acordo com a bactéria e os antimicrobianos que serão testados.

Após o tempo estabelecido, é feita uma avaliação visual das placas, sendo o antimicrobiano efetivo quando não há crescimento bacteriano na placa. Uma vantagem dessa técnica é que se pode efetuar o teste de vários isolados por placa. Como desvantagem, tem-se o tempo de realização, quando não é realizado de forma automatizada.

REFERÊNCIAS

  1. CORRÊA, A. J. C. (2018). Contribution of popular knowledge to the discovery of new antimicrobials. 2018.
  2. Magana, M., Pushpanathan, M., Santos, A. L., Leanse, L., Fernandez, M., Ioannidis, A., … Tegos, G. P. (2020). The value of antimicrobial peptides in the age of resistance. The Lancet Infectious Diseases. doi:10.1016/s1473-3099(20)30327-3 
  3. LIMA, L. M. et al. (2020) β-lactam antibiotics: An overview from a medicinal chemistry perspective. European Journal of Medicinal Chemistry, p. 112829, 2020.
  4. SILVA, Q. M. (2017). Resistência bacteriana a antimicrobianos em uma comunidade remota da Floresta Amazônica. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
  5. WOLLHEIM, C. (2014). Epidemiologia molecular de Escherichia coli e Klebsiella spp produtoras de beta-lactamase de espectro ampliado. Tese de doutorado. Universidade de Caxias do Sul.
  6. DROPA, M. (2012). Disseminação da resistência a antimicrobianos em cepas clínicas e ambientais de Enterobacteriaceae: identificação e mapeamento do ambiente genético de genes codificadores de ESBL. 2012. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
  7. COX, G..; WRIGHT, D. G. (2013). Intrinsic antibiotic resistance: mechanisms, origins, challenges and solutions. International Journal of Medical Microbiology, v. 303, n. 6-7, p. 287-292.
  8. BLAIR, J., WEBBER, M., BAYLAY, A. et al. (2015). Molecular mechanisms of antibiotic resistance. Nat Rev Microbiol,1342–51.
  9. HUGHES, M. A. et al. (2020). Antibiograms Cannot be used interchangeably between acute care medical centers and affiliated nursing homes. Journal of the American Medical Directors Association, v. 21, n. 1, p. 72-77.
  10. GOULART, T. M.(2017). Comparação entre Etest® e microdiluição em caldo para avaliação da susceptibilidade à polimixina B em Klebsiella pneumoniae produtoras de KPC. Trabalho de conclusão de curso. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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